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O "VOLUME 8" DE FABRIZIO DE ANDRÉ EM PORTUGUÊS LUSITANO Il "Volume 8" di Fabrizio de André in portoghese lusitano (quindi nella variante grafica e morfosintattica propria del Portogallo).
Traduzione integrale di Riccardo Venturi. O "Volume 8" de Fabrizio de André em português lusitano. Tradução integral de Riccardo Venturi. |
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1.
O MAU CAMINHO La Cattiva Strada À parada militar Cuspiu nos olhos a um inocente, Quando ele lhe perguntou porque, Respondiu-lhe, Isso é nada, E agora é hora de me ir, E o inocente o seguiu, Sem armas ele o seguiu Pelo seu mau caminho. Nas ruas atrás da estação Roubou a receita a uma rainha, Quando ela lhe disse, Como, Respondiu, Talvez seja melhor, como antes, Talvez seja hora de me ir, E a rainha o seguiu, Com a sua pena ela o seguiu Pelo seu mau caminho. E uma noite sem lua Viciou as estrelas a um piloto, Quando o avião caiu Ele disse, A culpa é de quem morre, Todavia é hora de me ir, E o piloto o seguiu, Sem as estrelas o seguiu Pelo seu mau caminho. A um alcoólico de dezoito anos Deitou de beber ainda um pouco E como aquele estava a olhar, Ele disse, Amigo, eu aposto, vais dizer-me Que é hora de me ir, O alcoólico o entendeu, Não disse nada e o seguiu Pelo seu mau caminho. A um processo por amor Beijou a boca aos jurados E aos seus olhares embaraçados Respondeu, Agora é mais normal, Agora é melhor, agora é justo, é justo, É justo que me vá, E os jurados o seguiram, De boca aberta o seguiram Pelo seu mau caminho. Pois, quando desapareceu, Aos que diziam, Isso foi mal, Aos que diziam, Isso foi bem Aconselhou a não virem Com ele onde quer que for, Mas há um pouco de amor para todos, E todos têm un pouco de amor Pelo mau caminho, Pelo mau caminho. 2. DOCE LUA Dolce Luna Ele anda como um velho marinheiro Não tem mais um lugar a onde ir, A terra não o espeira debaixo dos pés, Que maneira exquisita de dançar, A sua mulher tem outro amigo e outra amiga, A sério, é um homem em ruínas, E nos bolsos fica-lhe só um pouco de pó de mar, E não pode testemunhar Move-se sobre as pedras Como um leão invernal, Pode falar-te horas e horas Da sua quarta guerra mundial, Conserva o seu jantar numa folha de diário, A sua namorada, Isca com as pernas compridas, Faz o amor nada mal E não pode testemunhar Ele viu o marinheiro indiano Por-se em pé e cambalear, Com uma faca nas costas Entre a espuma e a estrela polar, E o timoneiro de Changái Voltou ao leme, sossegado, E ele o viu com o anel ao dedo E outro anel para roubar, Mas não pode testemunhar. Do escuro das tango-noites Até a parálise de um porto. A luz das estrelas claras Como um abrigo entornado, A sua baleia "Doce Lua", Que o espera no mar alto Perguntou-lhe muitas vezes, Amor, Com quem me queres esquecer? E não pode testemunhar E tu me vais dizendo, Quero um filho Pelo qual posso me orientar, Com dois olhos normais, e o terceiro Inconfundível, especial, E estou-me nas tintas Se ele não aprender nadar, O que importa é que tenhas na face direita A mancha a mar que eu também tenho, E dizes-me que o meu nome Tenho que lho dar, se tenho! Mas não sei testemunhar, Eu não sei testemunhar. Ne spraken dünne fragen kür, Ne skoargen dünne flachert, Ne skoargen bünne dünne skrähr En dünne ne spraken gulackt. Ehn argen bucht, Ehn hiereguß squahr, Ne spraken dünne flachert, Ne spraken dir, Ne spraken kür, Ne spraken dünnen dachrt. |
3.
CANÇÃO PARA O VERÃO Canzone per l’Estate Com a tua esposa que lavava os pratos Na cozinha, e não entendia, Com a tua filha que provava O seu fato novo, e sorria, Com a rádio que zumbia Pelo mundo coisas estranhas, O suspiro do teu cão que dormia. Com os teus santos sempre prontos a abençoar Os teus esforços para o pão, Com a tua criança loira A que ofereceste, a Natal, uma pistola Que parece verdadeira, Com a cama em que a tua esposa Não soube nunca satisfazer-te, E os óculos que hás-de trocar dentro de pouco, Como pode ser que não sabes mais voar? Com as tuas janelas abertas para a rua E os olhos fechados para a gente, Com a tua tranquilidade, lucidez, Satisfação permanente, O teu rabo sobresselente, As tuas nuvens alugadas, As tuas andorinhas de sentinela sobre o telhado. Com o teu franciscanismo em episódios E a tua doce consistência, Com o teu oxigénio purgado E as tuas ondas ajustadas num quarto, Com a licença de transmitir E a proibição de falar, E cada dia, outro dia para contar, Como pode ser que não sabes mais voar? Com os teus entusiasmos lentos Definidos por lembranças da estação, E uma bela adormecida Que acorda a tudo o que lhe ofereces, Com o teu coleccionismo De palavras complicadas, A tua última canção para o verão. Com as tuas mãos de papel Para embrulhar outras mãos normais, Com o néscio no jardim Isolando as tuas rosas melhores, Com o teu frio de montanha E a proibição de suar, E mais nada prá se ainda envergonhar, Como pode ser que não sabes mais voar? 4. AS HISTÓRIAS DE ONTEM Le Storie di Ieri (Francesco De Gregori) Meu pai tinha um sonho comum Partilhado pela sua geração, A queixada ao pátio falava; Atraiçoaram-no mortos de mais, Toda a gente que tinha entendido. E a criança está a jogar no pátio, Lança pedras no céu e o no mar, Cada vez que ele dá numa estrela Fecha os olhos e põe-se a sonhar, Fecha os olhos e põe-se a voar. Os cavalos, em Saló, morreram de tédio, A jogar com o preto, sempre se perde, Mussolini escreveu também poemas: Os poetas são criaturas exquisitas, Cada vez que eles falam, é uma burla. Mas meu pai é um rapaz tranquilo, A manhã ele lê muitos diários, Está convencido de ter ideias, E seu filho é um barco de piratas, E seu filho é um barco de piratas. E, até hoje, fica uma inscrição preta No muro em frente da minha casa, Diz que o Movimento vai ganhar, O caudilho tem a cara serena, A gravata combinada com a camisa. Mas, no pátio, a criança parou, Cansou-se de seguir o papagaio, Sentou-se entre as lembranças presentes E os ruídos ausentes, Olha pró muro, olha prás suas mãos, Olha pró muro, olha prás suas mãos, Olha pró muro, olha prás suas mãos. |
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5.
NANCY Nancy Há algum tempo já, A Nancy estava sozinha Ao último espectáculo Com todas as suas jóias No palácio da Justiça Seu pai era inocente, No palácio do Mistério Não havia mesmo nada, Não havia quase nada. Há algum tempo já, A gente estava distraída, Ela estava com meias verdes, Dormia com todos Nunca perguntou a ninguém: O que é que fazes amanhã? Apaixonou-se por todos nós, E não de alguém, E não só de alguém. E há algum tempo já, Com o telefone avariado Do terceiro andar procurou A sua serenidade A gente dizia que era livre, Mas ninguém dizia a verdade; Não a teríamos nunca cortejado No palácio do Mistério, No palácio do Mistério. E onde quer que os teus pensamentos Forem, há a Nancy que os pára. Muitos têm usado o seu corpo, Muitos têm penteado o seu cabelo. Mas no escuro da noite, quando Tiveres frio e estiveres perdido, É ainda a Nancy que te diz, Meu amor, Estou feliz de que vieste, Estou feliz de que vieste. 6. JUNHO ’73 Giugno ’73 Tua mãe está zangada comigo Porquê sou casado e, mais, canto; Canto bem, porém, E não sei se tua mãe É igualmente capaz De se envergonhar de mim A pega que te oferecei Morreu, a tua irmã chorou por ela, Aquele dia não vendiam flores, Que pena, Aquele dia vendiam Pegas falantes... Eu esperava que teria ensinado à tua mãe A dizer-me: Olá, como estás? Em fim, nem sequer a cantar, Já estou eu para isso, sabes. Os meus amigos são corteses para contigo, Mas vestem de maneira exquisita; Aconselhas-me a mandá-los para um costureiro E dizes-me: Eles são, hoje, os melhores que temos? E agora ris, e deitas-te um copo de mimosa No funil de uma manga desapertada, Os meus amigos deram-te a mão, Acompanha-los, a sua viagem leva un pouco mais longe. E espera um amor mais seguro, O teu isqueiro, sabe, já o dei como prenda, E também os dois pêlos de elefante, Gelavam-me o sangue, Dei-os a um passante... E or resto sempre vem sozinho, Os teus "socorro" ainda serão salvados, E pergunto a mim mesmo: Foi melhor deixar-nos Ou não termo-nos nunca encontrado. |
7.
OCÊANO Oceano Quantos cavalos sentaste à porta, Tu, que roças o céu com o teu dedo mais curto, A noite não precisa, A noite pode passar sem o teu concerto, Ofender-te-ias se alguém te chamar uma tentativa. E chegou uma criança com as mãos nos bolsos, E um ocêano verde atrás de si, Disse: Queria saber quanto é grande o verde, Como é belo o mar, quanto dura um quarto, Há tempo de mais que olho pró mar e fez-me mal. Tenta deixar os sinos à sua roda de andorinhas, E não metas o nariz na minha vida, E não me digas, Prefiro um poeta, Prefiro um poeta a um poeta derrotado, Mas, se tanto o desejares, podes beijar-me cada vez que queres. 9. AMIGO FRÁGIL Amico fragile Evaporado numa nuvem vermelha, Em uma das muitas seteiras da noite Com uma falta de cuidado e de amor Demasiado "Chora-se-me-quiseres" Para ser satisfeita, Valia a pena divertir-lhes as tardes de verão Com um simplicíssimo "Eu me lembro": Para observá-los alugar um quilo de erva Aos camponeses reformados e as suas mulheres E oferecer de mãos cheias ocêanos E mais, e mais ondas aos marinheiros em serviço Até descobrir, um a um, os seus esconderijos Sem ter saudade da minha credulidade: Porquê já desde a primeira trincheira Eu estava com mais curiosidade que vocês, Com muita mais curiosidade que vocês. Pois, suspenso entre os seus "Como está", A admirar lugares menos comuns e mais ferozes, Do tipo, Como te sentes, amigo, amigo frágil, Se desejares, uma hora por mês posso ocupar-me de ti, Você sabe que eu perdei dois filhos? A Senhora é uma mulher um pouco distraída. E ainda, matado pela sua amanilidade Na ora em que um dos meus sonhos, Bailarina da segunda fila Agitava por sei lá que futuro O seu presente de seios enormes E a cesariana de fresca data, Eu pensava, É belo que onde acabam os meus dedos Uma guitarra começa de qualquer maneira. Pois, sentado entre os seus adeuses, Sentia-me menos cansado que vocês, Sentia-me muito menos cansado que vocês. Podia palitar as calças à desconhecida Até ela ficar de boca aberta, Podia pedir-lhe a um qualquer dos meus filhos Que voltasse a falar mal, e em voz alta, de mim. Podia trocar a minha guitarra e o seu elmo Por uma caixa de madeira dizendo "perderemos". Podia perguntar-lhes como se chama o seu cão, Há algum tempo que o meu se chama "Livre", Podia engajar um caníbal por dia Que me ensinasse a minha distância das estrelas. Podia atravessar litros e litros de coral Até chegar a um lugar que se chame Adeus. Mas nunca me passou pela cabeça Que estava mais bêbedo que vocês, Que estava muito mais bêbedo que vocês. |
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